Divina e Profana

A música popular nas Américas seria completamente diferente se não fossem os negros. Completamente. O encontro da senzala com a sala de estar foi crucial para o desenvolvimento da nossa música. Sem essa mistura, ainda estaríamos ouvindo o cravo, sem nenhum batuque.

Mas a influência da musicalidade africana foi diferente nos dois hemisférios. Enquanto no Brasil desenvolvemos o ritmo em milhares de formas, nos Estados Unidos a vocalização, harmonias e melodias tomaram frente. Dessa história nasce o blues, o rock, o jazz e todas as vertentes ramificadas dessa árvore.

Mas a raiz da música negra americana está no blues. Dos campos de algodão vinha a dureza do trabalho e de lá também versos poéticos que não levantassem a suspeita do capataz. Era uma comunicação quase velada. O ritmo vinha do “Ring Shout”, um círculo formado pelos escravos que enquanto cantavam, batiam os pés e as mãos. Mais versos vinham do cotidiano, do marido bêbado, da esposa independente que largou a família e foi viver seu sonho. Vinham também do profano, nos festejos permitidos regados à bebida simples.

A raiz do blues é tão divina quanto profana. De dia se cantava a lamúria e se glorificava a esperança da salvação divina, à noite as histórias ganhavam o tom picante, sexual e de pactos com o outro lado.

Cercado de histórias, o blues tem a simplicidade básica que se busca na música popular: três ou quatro acordes, espaço de improviso, pode ser rápido ou lento, entrega o que quer dizer em poucas palavras e quase sempre com uma narrativa poética que se junta ao povo.

Subiu pelos Estados Unidos, chegou até Chicago e ganhou uma roupa nova toda eletrificada pela criatividade de Muddy Waters. Desde então, o blues é um coringa da noite, se veste como quer.

A noite de hoje no Mês da Música da Fundação Cultural Cassiano Ricardo recebe um dos maiores expoentes do gênero, o gaitista Flávio Guimarães. Um dos membros do Blues Etílicos, banda que colocou o blues em lugares que não havia conquistado no País, Flávio é considerado o melhor gaitista brasileiro. Com o Blues Etílicos lançou nove álbuns que se somam aos seis da carreira solo.

Sobre o show de hoje, junto com o também talentosíssimo Marcelo Naves, gaitista joseense que tem blues na família, não vamos entregar muita coisa. Uma vez, BB King foi perguntado por uma repórter sobre o set list do seu show. Ele respondeu:

“Você conta para as suas amigas como se vestirá para uma festa? Posso dizer que farei o meu melhor”.

Esperem isso.

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