Experiência foi o timbre da primeira noite do Mês da Musica

A abertura do Mês da Música em São José dos Campos foi sim uma boa experiência, mas não é desse tipo de experiência que pretendo falar, mas da que diz respeito ao trajeto de cada um de nós na vida pessoal ou profissional. Nossas experiências, no caso, as dos artistas que se apresentaram ontem nos palcos do evento organizado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo.

No Teatro Municipal, a experiência de alguém com mais de trinta anos tocando gaita e empunhando a bandeira do blues sempre. Flávio Guimarães dispensa apresentações para quem conhece o blues nacional, e para quem não o conhece, nove entre dez gaitistas se inspiraram no cara que é considerado o melhor do Brasil no seu instrumento.

A banda que acompanhou Flávio foi Marcelo Naves Quinteto, ou and Tiger Man, como vocês preferirem. Banda muito boa, músicos excepcionais, tudo certo. Mas como em todo encontro, tem dia que rola química e tem dia que não rola tanta. Não há o que dizer tecnicamente da apresentação, foi impecável, mas faltou um temperinho, aquele sal. Talvez o nervosismo de se apresentar com um cara tão reconhecido, talvez a pressão da abertura, mas um swing a mais seria legal. Entretanto isso não atrapalhou o show de forma drástica. Como disse, não tem como apontar defeitos técnicos e todo mundo ali toca muito.

Outro palco
De lá, corremos para a FCCR, no Bar de Quinta. Esse evento consolidado em São José como frente de música independente sempre traz boas surpresas. Quem começou foi a banda Caraná que em alguns momentos caetaneava em outros a flauta doce me dava uma impressão regional inevitável com o Sítio do Pica Pau Amarelo. O passeio pelas brasilidades foi gostoso de ouvir.

É como se estivéssemos no começo do caminho agora. Se no Municipal sobrava experiência dos músicos, com o Caraná a gente observa a construção dela. Todos muito jovens e com um caminho bem interessante pela frente.

Depois deles uma surpresa daquelas mais gratas, e agora estamos no meio do caminho. Canto cego é uma banda que começou seu processo criativo em 2010, na Favela da Maré, no Rio de Janeiro. Com essa formação atual – Roberta Dittz no vocal, a baterista Ruth Rosa, Rodrigo Soledad na guitarra e Magrão no contrabaixo – são cinco anos juntos.

Aí a gente tem que fazer uma pausa. Bandas de stoner rock, que cantam em português, com mulheres no vocal, tendem a soar sempre como a Pitty. Não foi o caso do Canto Cego. Roberta Dittz interpreta e canta com o coração cheio de verdade. E manda bem.

Guitarra e baixo com desconstruções que no começo do show me lembraram o Rage Against The Machine, mas acho que mais por conta do visual do Magrão, que trazia a imagem do Tom Morello o tempo inteiro no palco. Mas na boa, quem rege essa banda é a baterista Ruth Rosa. Firme, criativa, natural e poderosa.

Aliás, sobre poder é que se fala no Canto Cego. O poder exercido e o que não se consegue exercer. Com discurso social bastante afiado em letras pesadas, às vezes declamadas, a banda mostra sua raiz. E quando se busca de onde veio o resultado é sempre mais honesto.

Que venham mais boas noites como a de ontem. A música agradece.

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