Onde o povo está

Poderia começar o texto de hoje falando da beleza delicada no Museu Municipal nas interpretações de Bruno Madeira e Samuel Pontes. Peças contemporâneas de compositores do século 20, piano e violão, e executada no lugar certo. É muito louco perceber que quando a arte é apresentada dentro do seu contexto – um quadro no museu é diferente de um quadro na cozinha – ela ganha uma significação maior.

A gente podia também falar da apresentação do guitarrista Benoit Decharneaux com um quinteto brilhante intercalada pelas aulas do professor DJ Felipe Goulart. O Galpão Altino Bondesan está lindo para receber shows, público interessado, o lugar perfeito. A arte em seu contexto.

Mas quero falar sobre a apresentação do cantor Matheus Estevão, na Praça do Sapo, às 11h de um dos dias mais quentes que eu já vi. Nas cadeiras que ficaram sob o sol, ninguém. Nas sombras das árvores poucas pessoas estavam ali para assistir ao show. A maior parte do público estava na fila do Bom Prato. De cara vem aquele pensamento: poxa, não tem ninguém vendo.

Errado. Matheus tem um repertório popular moderno, não é aquele músico de banquinho e violão tradicional de bares, toca de Liniker a Foo Fighters com naturalidade, tem uma voz poderosa e aquele visual que poderia estar em qualquer programa do tipo The Voice, sabe?

Então, vamos pensar no contexto e no papel da arte. Será que a delicadeza de Bruno Madeira e Saulo Pontes ficaria bem sob o sol do meio dia no centro da cidade? O jazz e a aula no Galpão teriam a atenção que receberam se ocupassem o palco do Matheus?

Enquanto a fila do Bom Prato aplaudia e ganhava música ao vivo sem pagar couvert o público foi aumentando. Um desses bêbados folclóricos de praça mostrava seus dotes de dança, um comentava com o outro sobre o cardápio do dia, a criança se divertia com a fonte e tudo estava no seu lugar.

Inclusive a arte.

Compartilhe

2 respostas para “Onde o povo está”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *