Tropicália experimentalista

Talvez o título desse texto seja um pleonasmo, já que experimentar era a bandeira do Tropicalismo, mas com Arto Lindsay esse experimentalismo vai além de misturar influências e instrumentos. A exploração é mais profunda, às vezes incompreensível para o ouvido menos atento ou treinado nesse mundo organizado pelo guitarrista.

O que me chama mais atenção na música de Lindsay são os contrapontos doces da sua voz com um instrumental que às vezes soa caótico, feito para incomodar, em outras parece caminhar em linha reta. Mas só parece. Por exemplo, compare “Ridiculously Deep” com “Simply Are”, duas canções do músico.

Na primeira, a textura industrial no fundo, com um ritmo de uma reforma feita por dois operários robôs. Na segunda, um violão fluido no samba, intervenções eletrônicas menos incisivas. Ou seja, é uma viagem mesmo, daquelas que têm a saída, a parada pro café, o almoço, o banheiro, o pneu furado, o trânsito, o engarrafamento… Enfim, o acaso.

Assistir ao show de hoje é exercitar a capacidade de percepção. Lindsay na verdade se apaixonou pelo conceito da Tropicália, da mistura sem fronteiras, mas caminhou em direção à cena pós punk nova-iorquina, algo muito mais Lou Reed do que Tom Zé. Esse é o ponto de partida para entender seu trabalho.

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