As tias baianas

As mulheres foram e são fundamentais para a existência do samba. A baiana Hilária Batista de Almeida, ou Tia Ciata, foi uma das mulheres mais importantes nesse processo. Foi para o Rio de Janeiro na “Diáspora Baiana”, o êxodo que trouxe escravos libertos para o “mercado livre” e logo montou sua barraca de quitutes na Rua Sete de Setembro.

Ciata de Oxum era uma das “Tias Baianas” que abençoavam o samba no quintal antes do batuque começar.  Sua casa, na Rua Visconde de Itaúna, era a capital da “Pequena África”. Dos seus frequentadores habituais, que incluíam Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Sinhô e Mauro de Almeida, nasceu o samba.

A lenda vai mais longe. Pouco depois da abolição veio a Lei da Vadiagem (1941), que proibia, entre outras coisas, o samba no fundo do quintal. Tia Ciata teria conseguido a autorização para receber os tambores depois de ter receitado uma mistura de ervas medicinais para Getúlio Vargas.

As chamadas “tias” baianas tiveram um papel preponderante no cenário de surgimento do samba no Rio de Janeiro, no final do século 19 e início do século 20. Além de transmissoras da cultura popular trazida da Bahia e sacerdotisas de cultos e ritos de tradição africana, eram grandes quituteiras e festeiras, reunindo em torno de si a comunidade que inundava de música e dança suas celebrações – as festas chegavam a durar dias seguidos. Nessa época, viviam Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Prisciliana (mãe de João de Baiana), Tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana) e Tia Mônica (mãe de Pendengo e Carmen do Xibuca). Mas a mais famosa de todas foi Tia Ciata. É por causa delas que existe a Ala das Baianas nas escolas de samba.

A mulher também tem o papel inspirador. A musa do samba. A homenageada pela letra. Pelo prazer de amar ou pela dor de ser traído, os compositores sambistas imortalizaram as suas paixões. Com o passar do tempo, a imagem mais marcante e representativa do samba passou a ser o corpo feminino, especialmente o da passista, que carrega a coreografia da dança e a plasticidade da beleza hipnotizante da mulata.

Mas tem outra mulher que merece um destaque: Dona Ivone Lara.

De origem humilde e com formação musical sofisticada, ela sempre se destacou como grande musicista. Mas, no mundo do samba, a situação da mulher não era fácil. Para romper o padrão, Dona Ivone teve de enfrentar o machismo das rodas de samba e a repressão do próprio marido e conciliar a vida profissional como enfermeira e sambista para finalmente ser consagrada como a grande dama do samba brasileiro.

Ao se tornar a primeira compositora de sambas-enredo, ela rompe com a tradição de que a mulher apenas fazia parte do coro e ganha projeção e respeito no mundo do samba. Com vigor e competência, mostra as suas composições poéticas e harmoniosas, além da sua voz, que hoje é um dos registros mais sublimes e tocantes da música brasileira.

O Mês da Música não deixa nada disso de fora. Hoje, no Mercado Municipal às 11h, e na Praça Ulisses Guimarães, às 17h, o Samba de Moça Só, grupo formado só por mulheres, mostra o quanto evoluímos nesse cenário.

Obrigado, Tia Ciata.

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